domingo, 15 de fevereiro de 2009

Concordância Verbal. (verbo haver e fazer)

Para um brasileiro, a frase (1) "não havia dinheiro no cofre" é sinônima de (2) "não existia dinheiro no cofre" e de (3) "não tinha dinheiro no cofre". Se trocarmos dinheiro por cheques, no entanto, está armada a confusão: em (1), vamos ter "não havia cheques"; em (2), "não existiam cheques"; em (3) , embora o uso de ter com valor existencial seja classificado como pouco adequado para a escrita culta formal, se quisermos assim mesmo empregá-lo, vamos ter de escolher qual dos dois modelos (o de haver, impessoal, ou o de existir) ele vai seguir. Minha intuição aponta para a primeira hipótese: "não tinha cheques".
Todos os falantes sabem que a regra de ouro de nossa sintaxe é a de que todo verbo concorda com o SUJEITO da frase. O que devemos fazer, contudo, com aqueles verbos que não são atribuídos a sujeito algum, os chamados verbos impessoais? O uso culto prefere deixá-los imobilizados na 3a. pessoa do singular. Felizmente esses verbos formam um grupo extremamente reduzido:

1. HAVER - Este verbo, quando usado nos sentidos de EXISTIR ou OCORRER, ACONTECER, fica sempre na 3ª do singular (o elemento em destaque é analisado como objeto direto):
CORRETO: Havia dez interessados. Aqui houve alterações. Haverá sessões contínuas.
ERRADO: Haviam dez interessados. Aqui houveram alterações. Haverão sessões contínuas.
Você já deve ter-se acostumado a ouvir : *haviam pessoas, *haverão dúvidas - construções provavelmente inspiradas, por analogia, em existiam pessoas e existirão dúvidas, mas com certeza, ficaria surpreso se soubesse o quanto se discute, entre os estudiosos, a conveniência de considerar, de uma vez por todas, o verbo haver como um verbo comum com sujeito posposto. Há bons argumentos contra e bons argumentos a favor desse "reenquadramento" de haver, e tanto um quanto o outro lado têm a defendê-los jovens e velhos gramáticos. Aqui se trata, porém, de definir um item do uso culto escrito; portanto, se você quer se sentir seguro, não invente moda e opte por deixar o verbo sempre no SINGULAR. Em outras palavras: se você não quer chamar a atenção de todos durante a cerimônia, use gravata (e, de preferência, com um nó clássico).

2. FAZER (e HAVER, também), indicando TEMPO DECORRIDO
CORRETO:Faz três meses. Amanhã fará dois anos. Fazia duas horas que esperava. Havia dois dias que não comia.
ERRADO (bem errado):Fazem três meses. Amanhã farão dois anos.Faziam duas horas que esperava. Haviam dois dias que não comia.

3. FAZER, indicando CONDIÇÕES METEOROLÓGICAS:
CORRETO: Fez dias belíssimos. No século XXI fará verões rigorosos. Ali fazia 40° à sombra.
ERRADO:Fizeram dias belíssimos. No século XXI farão verões rigorosos.Ali faziam 40° à sombra.

4. PASSAR DE, em expressões de tempo:
CORRETO: Passava das duas horas. Passa das três da tarde.


ERRADO: Passavam das duas horas. Passam das três da tarde.
Não confunda esta estrutura, que é considerada SEM SUJEITO (note que duas horas, três horas, etc., vêm precedidos da preposição DE), com o verbo PASSAR que aparece nos exemplos abaixo:
Passam três horas do meio-dia.
Passavam três minutos das duas.
(Aqui, três horas e três minutos são o SUJEITO do verbo.)

5. BASTAR DE e CHEGAR DE:
basta de reclamações (e não *bastam de)chega de pedidos (e não *chegam de)

6. TRATAR-SE DE, com referência a uma afirmação anterior. CORRETO: O clube dispensou Jari e Adão. trata-se de dois jogadores sem função na atual equipe.ERRADO: O clube dispensou Jari e Adão. *tratam-se de dois jogadores sem função na atual equipe
CORRETO: Lá vêm as duas moças. Não esqueça: trata-se das filhas do prefeito.ERRADO: Lá vêm as duas moças. Não esqueça: *tratam-se das filhas do prefeito.
[O asterisco antes de uma palavra ou expressão indica que se trata de uma forma agramatical]

Um comentário:

  1. Professor, obrigado! Estava com dúvida quanto à expressão "passar de" referindo-se a horas. Abs!

    ResponderExcluir